O Escravo e a Cruz PDF Imprimir E-mail
Por Pr Carmo   
10 de September de 2008

     Esta é uma história para leigo, pois ao escrevê-la não tive a mínima preocupação teológica e procurei seguir fielmente como eu a ouvi, também sem preocupar com a veracidade de seus elementos, mas focando sua simplicidade e grandeza de seu objetivo.
     Eu poderia dizer que esta historia é uma historia de matuto ou talvez não devesse ser chamada historia, mas sim uma lenda a qual eu ouvi do meu pai umas duas ou três vezes quando tinha mais ou menos seis anos.
    Dizia meu pai que em uma região existia um senhor fazendeiro que tinha certo número de escravos, os quais trabalhavam em uma lavoura de café.
    Dizia ele que ao final de uma jornada quando os escravos, já quase escurecendo, retornavam para a fazenda, provavelmente para a senzala, um deles numa certa altura do caminho deixava o grupo e entrava numa pequena mata a beira da estrada e depois de um pequeno tempo retornava e se juntava novamente com o grupo.
    Com o passar do tempo aquele hábito daquele escravo chamou a atenção de seu capataz.

    Certo dia depois de tantos dias daquela rotina, o escravo ao chegar naquele lugar afasta do grupo e se dirige ao lugar de sempre, e o seu capataz às escondidas vem após ele sem que ele perceba, procurando desvendar aquele mistério.
    O escravo caminha até o lugar onde havia uma cruz, se ajoelha diante dela, bate com a mão no peito e diz: - Cruz o negro ta aqui! - bate no peito de novo e diz - Cruz o negro ta aqui! – e repete a mesma coisa até completar três vezes; Levanta e volta correndo para se juntar ao grupo.
    Diz que enquanto o escravo se ajoelha, batia no peito e dizia: - Cruz o negro ta aqui, o Capataz o observava e o via suspenso do chão tal era a sua fé, a sua devoção.
    Essa é a historia do escravo e da cruz que ouvi do meu pai, simples com traços de superstição, sem fundo teológico, mas com enorme toque de fé e poder.
    Sabe por que tenho coragem de escrever sobre tal historia ou lenda e dizer que ele tem um enorme toque de fé e poder?
    Primeiro: Ela tem um paralelo muito grande com a parábola do publicano e do fariseu, talvez até seja uma versão modificada com o tempo, ou adaptada no meio da escravidão a qual servia para estimular a fé simples e sincera daqueles que buscavam a Cristo.
    Você pode estar pensando: - Como ele estava buscando a CRISTO? Ele ajoelhava diante de uma cruz; Isso é idolatria, pode até ser, e muitas vezes é, mas nem sempre o que parece é; aliás, nós evangélicos não cantamos foi na cruz, foi na cruz ou então rude cruz?

 

cruz

    Ah! E o fato de o capataz ao olhar para ele o ver suspenso do chão? Isso não é verdade, é superstição.
    Eu digo pode ser, mentira, pode ser superstição, mas tem coragem para dizer com todas as letras que pode ser verdade. Ou você não crê que aquele que deu o seu filho na cruz pela humanidade não poderia fazer isso por aquele filho que o buscava na sua simplicidade, mas com sinceridade e pureza de coração?
    Segundo: Vamos deixar essas coisas para lá, talvez vocês nem vão continuar nessa leitura, mas se você continuar vou falar um pouco sobre o que eu sei desse escravo e o que essa historia significa para mim.
    Essa historia toca profundamente minha vida; eu disse toca e não tocou, porque ele se repete quase diária na minha vida, quando depois de uma jornada de trabalho, ao encerrar de um dia eu coloco meus joelhos no chão, lembro daquela cruz, daquele escravo, e digo: - Pai o negro ta aqui, o negro agradece suas bênçãos, o negro pede sua benção.
    O que sei daquele escravo é que ele não tinha passado e nem futuro, não adiantava pensar, nem sonhar, não tinha uma casa para ir nem uma família para abraçar, talvez tivesse uma esposa e filhos, mas esposa e filhos que não eram seus, eram de seu senhor.
    Seu passado, seus pais, seus irmãos, quem eram e quem são, mesmo que os tivesse não eram seus e da mesma maneira o seu futuro não era seu, era do seu senhor.
    Creio que se entrarmos verdadeiramente na vida daquele escravo, fosse até a senzala com ele, suas roupas, sua cama, sua comida e agente continuasse e conseguisse penetrar no seu coração, nos seus pensamentos, nos seus sonhos, certamente agente choraria, olharia em volta de nós e gritaria: SENHOR, como sou feliz, como sou abençoado! E nossos joelhos se dobrariam e diríamos como dizia o escravo: - Cruz o negro ta aqui! – Cruz o negro ta aqui – ou então como o publicano, nos de cabeça baixa diríamos: Sê propício a mim pecador.

 

Última Atualização ( 10 de September de 2008 )
 
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